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Deficientes ganham mais opções para ler com 'olhos e mãos'

Iniciativas como Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil tentam reverter o quadro atual, onde são poucas as opções de material para deficientes

Toda criança tem direito à leitura. Essa é uma máxima entre os educadores brasileiros, mas quando se abre um parêntese para o acesso de crianças com deficiência visual ao livro, vem à luz uma questão que ainda deixa muito a desejar. A realidade é que ainda são poucas as opções de materiais acessíveis para a criança cega ou com baixa visão adquirir conhecimento, cultura, lazer e se desenvolver. A fim de reverter esse quadro ou ao menos começar a mudá-lo, a Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil (AEILIJ) e a Fundação Dorina Nowill para Cegos deram início à Coleção AEILIJ Solidária, cujos dez primeiros títulos foram lançados no final de abril na biblioteca do 14º Salão da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), que aconteceu no Centro de Convenções SulAmérica, no Rio de Janeiro.

A primeira tiragem da parceria, com o patrocínio de instituições bancárias, teve mais de 35 mil exemplares distribuídos para cinco mil bibliotecas, escolas e organizações de todo o Brasil. As obras também estão à venda na loja virtual da Fundação Dorina Nowill, com renda revertida para a entidade. Os livros podem ser lidos por todos, mas foram produzidos para atender às crianças com pouca ou nenhuma visão. Para isso foi feita impressão em braille sobre o texto com fonte ampliada. E as ilustrações foram impressas com poucos detalhes e bastante contraste, além de contorno em relevo pontilhado.

Entre os ilustradores e escritores que assinam a coleção infantil estão o niteroiense Maurício Veneza e a carioca, moradora de Niterói, Sandra Ronca. Maurício colaborou com o texto de “Capitão Mariano, o rei do oceano”, ilustrado por Roney Bunn. Ele conta que trabalhar para este público era um desejo antigo, por isso não titubeou quando, em 2010, surgiu o convite para participar da coleção. O escritor diz que se empenhou em produzir um texto pensando nas limitações das crianças com baixa visão e cegueira total.

“Procurei não fazer analogias visuais, mas auditivas e sensoriais. Por exemplo, ao invés de o sol estava avermelhado, que é uma analogia visual, usar uma sensação como ‘o sol estava mais quente’”, explica, e acrescenta: “Estou muito feliz com o resultado e queria, inclusive, que meus outros livros tivessem versão em braille”, finaliza.

Já Sandra Ronca ilustrou “A horta da Ethel”, texto de Celso Sisto. A ilustradora explica que foi um trabalho minucioso e, além de seguir um manual da própria Fundação Dorina com algumas regras, como evitar figuras com braços cruzados, perspectiva de profundidade, sombras e degradê, pesquisou muito sobre o assunto, buscando outras fontes, como a ilustradora Márcia Cardeal, especialista em ilustrações para crianças com cegueira total, defensora da tese de mestrado em artes visuais “Ver com as mãos – A ilustração tátil em livros para crianças cegas”, pelo Centro de Artes da Universidade do Estado de Santa Catarina (Ceart/Udesc).

“A Márcia me ajudou muito, inclusive faço uma dedicatória a ela como agradecimento pelas preciosas dicas no livro. Enfim, mergulhei fundo nesse universo, que até então desconhecia, para que as coisas saíssem facilitadoras. E chorei emocionada ao passar a mão e sentir literalmente o resultado do meu trabalho, imaginando como seria a sensação de uma criança ao tocá-lo”, revela.

A organizadora do projeto, Anna Claudia Ramos, também se emociona. Ela escreveu “Meu pai é o máximo”, ilustrado por Danilo Marques.

“O retorno é muito bom. A alegria dos pais ao ver o encantamento dos filhos que só tinham livros em braille e agora podem sentir o relevo dos desenhos é muito gratificante. Um momento marcante para mim foi ver, no stand da associação, a vibração de uma criança cega ao pegar, por coincidência, o meu livro para ler, e ainda ouvir a mãe comentar que não sabia que a criança era tão boa na leitura em braille. Isso não tem preço”, conta.

Parceria rende selo e mais uma coleção

Segundo Anna, a parceria surgiu por incentivo de uma pessoa em comum entre a AEILIJ e a Fundação Dorina, que fez uma ponte entre as entidades. A parceria foi firmada em 2010 através do contrato assinado por Anna, então presidente da AEILIJ, e Roberto Gallo, representando a Fundação Dorina.

“Essa parceria proporcionou ainda a concretização de um desejo da associação, o lançamento do selo AEILIJ Solidária, nossa marca social”, acrescentou, lembrando que todos os escritores e ilustradores abriram mão dos seus direitos autorais para que a renda obtida com a venda dos livros seja destinada exclusivamente para a Fundação Dorina.

A parceria continua rendendo frutos e, ainda este ano, é previsto o lançamento da Coleção Diferenças, de cinco livros com temas pré-definidos. É prevista ainda a produção de mais dez livros para o segundo semestre.

O presidente da Associação Fluminense de Amparo aos Cegos (Afac), Omar Luiz Rocha da Silva, reforça a importância de parcerias como esta para se reduzir o déficit na produção de livros destinados aos deficientes visuais no País.

“Recentemente chegou-se a cogitar que, com o advento da informática, as pessoas deixariam de usar o braille. Isto é absolutamente contestável. O livro falado é importante, mas já traz suas interpretações, é diferente do livro lido, que permite que a pessoa faça suas próprias associações. O braille é a linguagem do cego e sua produção deve ser valorizada. A criança, principalmente, deve ter acesso a esse material e aprender como qualquer outra. É claro que não devemos descartar o material tecnológico nesse processo, mas o livro não deve ser abandonado, nunca”, ressalta. 

Fonte : O Fluminense

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