
O estudo, publicado em 14 de agosto na Environmental Research, concluiu que pode ter havido até 7.000 nascimentos prematuros extras na Califórnia, atribuídos à exposição à fumaça de incêndio florestal entre 2007 e 2012. Esses nascimentos ocorreram antes de 37 semanas de gestação, quando o desenvolvimento incompleto aumenta o risco de várias complicações neurodesenvolvimentais, gastrointestinais e respiratórias e, eventualmente, até o óbito do recém-nascido.
A fumaça do incêndio contém altos níveis do menor, porém mais mortal, tipo de poluição por partículas, conhecido como PM 2.5. Essas partículas de fuligem tóxica, ou partículas em suspensão, são tão finas que podem se inserir profundamente nos pulmões e passar para a corrente sanguínea, assim como as moléculas de oxigênio de que precisamos para sobreviver.
A pesquisa surge no momento em que grandes incêndios florestais estão novamente atingindo paisagens áridas no oeste dos EUA — e apenas um ano depois de uma temporada histórica de incêndios florestais que incendiou mais de 4 milhões de acres na Califórnia e produziu um dos piores índices de poluição atmosférica diária já registrados no estado. Durante a temporada de incêndios de 2020, mais da metade da população do estado foi submetida a um mês de níveis de fumaça de incêndios florestais que ficaram na faixa de insalubres a perigosos.
Este ano pode ser pior, disse o economista ambiental de Stanford Marshall Burke, co-autor do novo estudo. E, no entanto, muito segue desconhecido sobre os impactos na saúde dessas partículas nocivas, que contribuem com uma parcela crescente da poluição por partículas finas em todo o país e têm uma composição química diferente de outras fontes ambientais de PM 2.5, como agricultura, emissões de escapamento e indústria.
Uma possível explicação para a ligação entre a exposição à fumaça de queimadas e o nascimento prematuro, dizem os autores, é que a poluição pode desencadear uma resposta inflamatória, que, então, aciona o parto. O aumento do risco é relativamente pequeno no contexto de todos os fatores que contribuem para o nascimento de um bebê saudável, em pleno desenvolvimento.
Eventos climáticos extremos e prognóstico ruim
Os resultados do novo estudo mostram que a fumaça dos incêndios florestais pode ter contribuído para mais de 6% dos nascimentos prematuros na Califórnia no pior ano de queimadas do período observado no estudo, 2008, quando uma forte tempestade com relâmpagos, ventos fortes, altas temperaturas e uma paisagem árida formaram a "tempestade perfeita" que culminou em uma mortal e destruidora temporada de incêndios — que agora foi ofuscada pelos números recordes de 2020, além de fogos contínuos, como o incêndio Dixie no norte da Califórnia.
"No futuro, prevemos uma exposição mais frequente e intensa à fumaça de incêndios florestais em toda a costa oeste (dos Estados Unidos) devido a uma confluência de fatores, incluindo mudanças climáticas, um século de supressão de incêndios e construção de mais casas ao longo das franjas das florestas mais suscetíveis a incêndios. Como resultado, os danos da exposição à fumaça na saúde — incluindo partos prematuros — tendem a aumentar", disse o autor principal do estudo, Sam Heft-Neal, pesquisador do Centro de Segurança Alimentar e Meio Ambiente de Stanford.
Segundo os pesquisadores, também trata-se de um problema econômico de saúde pública, visto que os partos prematuros custam ao sistema de saúde americano cerca de US$ 25 bilhões por ano, então mesmo reduções modestas nos riscos de nascimentos prematuros podem render "enormes benefícios para a sociedade", disse Marshall Burke, professor associado de ciência do sistema terrestre na Escola de Terra, Energia e Meio Ambiente de Stanford.
"Nossa pesquisa destaca que reduzir o risco de incêndios florestais e a poluição do ar que o acompanha é uma forma de alcançar esses benefícios sociais."
'Não existe nível seguro de exposição'
Os pesquisadores analisaram dados de satélite das nuvens de fumaça fornecidos pela Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) para identificar dias de fumaça para cada um dos 2.610 códigos postais. Eles compararam esses dados com estimativas de poluição de PM 2.5 no nível do solo, que foram desenvolvidas usando o algoritmo de uma inteligência que incorpora dados de sensores de qualidade do ar, observações de satélite e modelos de computador de como os produtos químicos se movem na atmosfera da Terra.
Na sequência, extraíram dados adicionais dos registros de nascimento da Califórnia, excluindo gêmeos, trigêmeos e múltiplos mais altos, partos que geralmente ocorrem antes de 37 semanas.
Depois de considerar outros fatores conhecidos por influenciar o risco de nascimento prematuro, como temperatura, exposição à poluição e idade, renda, raça ou origem étnica da mãe, eles observaram como os padrões de nascimento prematuro em cada CEP mudavam quando o número e a intensidade dos dias de fumaça subiam acima do normal para aquele local.
Os cientistas descobriram que cada dia adicional de exposição à fumaça durante a gravidez aumentava o risco de parto prematuro, independentemente de raça, etnia ou renda. E uma semana inteira de exposição se traduziu em um risco 3,4% maior em relação a uma mãe que não foi exposta à fumaça de um incêndio florestal.
A exposição à fumaça intensa durante o segundo trimestre — entre 14 e 26 semanas de gravidez — teve o impacto mais forte, especialmente quando a fumaça contribuiu com mais de 5 microgramas adicionais por metro cúbico para as concentrações diárias de PM 2,5.
"Se alguém puder evitar a exposição à fumaça permanecendo em ambientes fechados ou usando uma máscara apropriada ao ar livre, isso seria uma boa prática de saúde para todos", disse Shaw.
As descobertas baseiam-se em uma ligação estabelecida entre a poluição por partículas e resultados adversos do nascimento, incluindo nascimento prematuro, baixo peso ao nascer e mortalidade infantil. Mas o estudo está entre os primeiros a isolar o efeito da fumaça do incêndio em nascimentos prematuros e a destacar a importância do tempo de exposição.
“Nosso trabalho, junto com uma série de outros artigos recentes, mostra claramente que não há um nível seguro de exposição a partículas. Qualquer exposição acima de zero pode piorar os impactos na saúde”, disse Burke, que também é vice-diretor do Centro de Segurança Alimentar e o Meio Ambiente e um membro sênior do Freeman Spogli Institute for International Studies de Stanford.
"Embora seja extremamente difícil para a sociedade eliminar totalmente todos os poluentes do ar, nossa pesquisa sugere que reduções adicionais nos principais poluentes abaixo dos atuais níveis 'aceitáveis' podem ser extremamente benéficas para a saúde pública", concluiu.
Fonte: Jornal Extra
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