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Com Arcturus e fim da emergência, vacinas bivalentes ainda são eficazes? Especialistas respondem

 

Vacina bivalente protege contra variantes

Embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) tenha decretado, no último dia 5, que a Covid-19 não representa mais uma emergência internacional de saúde, a doença continua a circular e provocar dezenas de óbitos por dia apenas no Brasil. O cenário, embora inegavelmente melhor do que aquele de abril do ano passado, quando eram milhares de mortes a cada 24h, mostra que o vírus ainda está entre nós, e que a luta contra ele não chegou ao fim.

O Brasil, desde o final de fevereiro, vive uma intensa campanha de vacinação, que hoje chama toda a população adulta aos postos de saúde para receber a dose de reforço chamada de bivalente, que amplia a proteção contra a variante Ômicron. Porém, com novas linhagens do coronavírus ganhando espaço, como a Arcuturs, e o fim da emergência, uma pergunta tem surgido: os novos imunizantes são eficazes?

As vacinas chamadas de bivalente são a segunda geração da proteção contra a Covid-19, aprovada pela primeira vez no Reino Unido, em agosto do ano passado. Elas recebem esse nome porque envolvem duas partes do vírus em sua composição: uma da versão original e outra da Ômicron, variante prevalente desde o fim de 2021.

O problema é que a Ômicron também se divide em diferentes versões, as chamadas subvariantes, e tem-se mostrado que uma não gera proteção tão alta contra uma reinfecção pela outra. Além disso, quando os imunizantes novos foram feitos, a Pfizer/BioNTech utilizou sublinhagens chamadas BA.1 e BA.4/BA.5, que circularam do início ao meio do ano passado, mas que já não circulam desde o fim de 2022.

Recentemente, por exemplo, a versão XBB.1.16, descoberta na Índia em janeiro, teve o primeiro caso identificado no Brasil e ficou conhecida como Arcturus. A imunologista e doutora em Biociências e Fisiopatologia, Letícia Sarturi, porém, lembra que, antes da Arcturus, houve outras versões (BQ.1, BQ.1.1 e XBB.1.5) que substituíram as que estão vacinas e, mesmo assim, a proteção com a bivalente permaneceu superior. O que deve continuar para a Arcturus por ainda ser uma versão da Ômicron.

— As vacinas bivalentes estimulam uma resposta mais especializada, mas o reconhecimento do sistema imune não é como uma leitura de código de barras em que basta um número estar errado para a leitura falhar. As vacinas bivalentes vêm sendo aplicadas amplamente desde o ano passado e estudos de efetividade já indicaram que elas são eficazes contra essas outras variantes que circularam. A resposta imune se especializa, mas a semelhança entre as variantes (por se tratar do mesmo vírus) faz com que a resposta imune cubra todas elas — explica a especialista.

Em fevereiro, pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, analisaram dados de vacinação com a dose original e com a bivalente. As informações eram de dois períodos no tempo: um mais cedo em 2022 e outro mais no final, quando as linhagens BQ.1 e XBB.1.5 já passavam a tomar conta no país.

A conclusão foi que a eficácia para evitar doença grave da bivalente foi semelhante em ambos os períodos até cerca de três meses após a aplicação, mostrando que a proteção continuou alta, seja contra as sublinhagens iniciais da Ômicron, seja com as mais recentes.

Além disso, confirmou que a bivalente aumenta mais a proteção do que a dose original. Enquanto a vacina da primeira geração elevou a proteção em cerca de 25%, a versão atualizada subiu a eficácia em 62%. O trabalho, publicado no periódico New England Journal of Medicine, ressalta a importância de buscar a nova vacina.

“A maior eficácia encontrada neste estudo demonstra por que é importante que as pessoas se protejam com o reforço atualizado, mesmo que já tenham recebido uma dose de reforço original antes”, disse o membro da equipe de pesquisa, Zac, na época.

Queda de proteção com o tempo demanda nova dose

Os trabalhos, no entanto, apontam que, assim como as doses anteriores, essa proteção também diminui com o tempo, o que é especialmente importante entre os grupos de maior risco, como idosos e imunossuprimidos. Por isso, o médico geneticista e diretor do laboratório Genetika, em Curitiba, Salmo Raskin, destaca que a questão maior no momento é conseguir alcançar uma população que já não recebe nenhuma dose há mais de seis meses.

— Enquanto não surgir nenhuma outra variante de preocupação diferente da Ômicron, não vai existir essa pressão tão grande para se desenvolver uma outra vacina. A grande questão hoje é conseguir que um maior número de pessoas tome a vacina atual, isso é mais urgente no momento. Até pelo tempo da última dose, então neste momento é muito importante que as pessoas estejam atualizadas — diz.

É como também pensa Letícia, que acredita que não apenas agora com a XBB.1.16, mas mesmo no futuro quando aparecerem novas sublinhagens da Ômicron, a tendência é que a bivalente continue a proteger – mas para isso ela precisa ser tomada.

— Mesmo que apareçam novas variantes a partir da Ômicron, pela característica da resposta imune, pela semelhança entre as variantes, a resposta ainda vai funcionar. O importante, na minha opinião, é manter a vacinação em dia e dentro dos prazos recomendados, especialmente para grupos mais vulneráveis — afirma.

Fim da emergência não é desculpa

Eles ressaltam que, embora o momento de fato seja outro, o vírus ainda está circulando e provocando cerca de 40 mortes por dia no Brasil, segundo o último informe do Ministério da Saúde. Isto é, dois mil óbitos em menos de dois meses, enquanto a gripe não chegou a essa marca durante todo o ano de 2022.

Por isso, defendem que o fim da emergência de saúde, anunciado pela OMS, não deve servir como um sinal de que a pandemia acabou. E sim que devemos aproveitar o período de melhor cenário justamente para atualizar a vacinação e impedir que ele volte a piorar.

— Erradicar não é mais conversa. Nós vamos conviver com o vírus, mas na expectativa de que as vacinas vão nos proteger como nos protegem da gripe. Mas você tem que vacinar justamente agora que estamos num cenário melhor. É como a pólio, há quantos anos não temos um caso no Brasil? E justamente para manter esse cenário é que continuamos a nos vacinar contra ela — exemplifica Raskin.

Sobre o futuro da vacinação, a possível orientação de novos reforços semestrais ou anuais e o desenvolvimento de novas gerações de imunizantes, o infectologista do Instituto Emílio Ribas, em São Paulo, Leonardo Weissmann, diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), diz que ainda não é possível fazer uma previsão.

— Ainda não existe um consenso sobre o futuro da vacinação contra a Covid-19. Sabe-se que atualizações serão necessárias, mas a periodicidade ainda é desconhecida. O vírus gera novas variantes em uma taxa diferente do Influenza (vírus causador da gripe). O padrão do coronavírus não é tão previsível quanto o do Influenza, para que se possa afirmar com certeza o momento certo para se vacinar. Por isso não sabemos se as pessoas precisarão ser vacinadas todos os anos, como na gripe, ou com menos frequência para serem protegidas contra formas graves da Covid — explica.

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