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Morte de turista no Cristo Redentor: cardiologista explica como um desfibrilador poderia ter evitado a tragédia

 


A morte do turista gaúcho Jorge Alex Duarte, de 54 anos, no Cristo Redentor, no último domingo, trouxe à tona a falta de estrutura para atendimentos de emergência em um dos principais cartões-postais do Brasil. Jorge sofreu um infarto fulminante logo após subir parte da escadaria do monumento, mas não havia socorristas nem um desfibrilador disponível no local. Para o cardiologista e professor do Curso de Medicina da Unig, Jorge Ferreira, o uso rápido do equipamento poderia ter feito toda a diferença no desfecho da tragédia.

"O desfibrilador é o principal aparelho que precisa estar disponível em casos de parada cardíaca. Ele funciona como um relógio da sobrevida: a cada minuto sem atendimento, as chances de sobrevivência diminuem. Se o paciente tiver um ritmo chocável (quando é necessário um choque elétrico para voltar à normalidade), o desfibrilador pode aumentar significativamente as chances de salvá-lo", explica o médico, que também é coordenador do Laboratório de Habilidades Médicas e Simulação (LHS) da universidade.

Jorge Ferreira reforça que os desfibriladores automáticos são fabricados de forma que possam ser usados por qualquer pessoa, mesmo sem treinamento prévio. "Você só precisa seguir as instruções do aparelho. Ele orienta sobre o posicionamento dos eletrodos, a necessidade de massagem cardíaca e, se for o caso, aplica o choque. Isso poderia ter aumentado significativamente as chances de o turista ter sobrevivido", esclarece o cardiologista.

Uma câmera de segurança instalada na escadaria do Cristo Redentor registrou o momento em que o turista gaúcho passou mal e morreu, no último domingo. Após tentativas de massagens cardíacas feitas pela nora de Jorge, um outro homem e depois novamente a nora, aparece uma mulher que veste o uniforme do Trem do Corcovado, com uma bolsa amarela onde haveria um desfibrilador.

"O resumo é que a gente passou por uma situação de 35 minutos até o Samu chegar, sendo a situação, basicamente, comandada por mim. Quando o Samu chegou, eles assumiram a cena, fizeram as condutas que necessitavam ser feitas. Mas, infelizmente, tinham se passado 40 minutos de tudo, desde o primeiro atendimento por mim, até o Samu chegar. E, infelizmente, não foi o suficiente", disse Melissa Schiwe, nora de Jorge, que é enfermeira, em entrevista ao programa "Encontro", da TV Globo.

Esforço físico pode ser gatilho

O especialista também alerta que o esforço físico intenso pode ser um gatilho para infartos em pessoas com fatores de risco. "A subida de escadas é um exercício de moderado a intenso. Se a pessoa é sedentária ou tem alguma doença cardíaca sem saber, isso pode provocar uma arritmia e levar à parada cardíaca. No vídeo do ocorrido, vemos que o turista não passa mal no início da escada, mas logo após o último degrau. Ele encosta e logo depois ele cai, o que sugere um quadro desse tipo", analisa Jorge Ferreira.

Postos médicos funcionando e ambulância foram alguns dos requisitos para a reabertura do Cristo Redentor. "O ideal seria que o local tivesse uma equipe de suporte básico de vida. Não precisa ser um médico de plantão, mas socorristas treinados a postos já fariam uma diferença enorme. O atendimento imediato poderia ter mudado completamente o desfecho desse caso. É provável que ele tivesse uma doença cardíaca prévia que evoluiu ali para um evento de arritmia que gerou a parada cardíaca e a morte dele”, afirma o cardiologista.

A legislação brasileira já determina a presença de desfibriladores em locais de grande circulação, como estádios e aeroportos. Em 2004, o zagueiro Serginho, do São Caetano, morreu após sofrer uma parada cardiorrespiratória em campo. O caso levou o futebol brasileiro a adotar o protocolo de ter desfibriladores e ambulâncias nos estádios. No Rio, a Lei Municipal nº 7.259/2022 também faz a exigência e prevê sanções em caso de descumprimento.

Alerta para evitar novos casos

Mas, segundo Jorge Ferreira, infelizmente a norma ainda não é amplamente aplicada em pontos turísticos, embora a legislação, em geral, faça menção à necessidade do equipamento em “locais de grande circulação de pessoas”. "Existe uma lei federal que exige a presença do desfibrilador, mas não necessariamente de uma equipe médica. No entanto, em locais como o Cristo Redentor, que exigem esforço físico dos visitantes, ter um suporte mínimo deveria ser obrigatório", ressalta.

O caso reforça um alerta: sem infraestrutura adequada, outras vidas podem ser perdidas da mesma forma. "Não dá para ignorar a importância da resposta rápida em eventos como esse. É importante ter uma equipe de primeiro atendimento treinada e de posse dos recursos necessários para agir, como um desfibrilador externo automático”, explica Jorge Ferreira, acrescentando que a medida é fundamental também pela imprevisibilidade desse tipo de ocorrência. “Hoje você consegue fazer exames e reduzir em torno de 70% o risco de um evento agudo. Mas em 30% dos casos não há o que fazer. Não há garantia de 100% de que os exames vão impedir um infarto”.

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