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Alergia à proteína do leite de vaca afeta milhares de crianças no Brasil

 

Na Semana da Conscientização das Alergias Alimentares, especialistas chamam atenção para a Alergia à Proteína do Leite de Vaca (APLV), uma das condições alérgicas mais comuns na infância, especialmente nos primeiros dois anos de vida. Estima-se que entre 1% e 2% das crianças brasileiras sejam afetadas por esse tipo de alergia, segundo dados da UFMG e da UNICAMP. Embora a maioria dos casos tenha evolução positiva ao longo dos anos, podendo desaparecer até a adolescência, há relatos em que a condição persiste até a vida adulta.

A APLV ocorre quando o sistema imunológico identifica, de forma equivocada, as proteínas do leite como agentes nocivos, desencadeando reações que vão de sintomas gastrointestinais leves, como constipação e refluxo, até manifestações graves como a anafilaxia, uma resposta alérgica severa que pode levar à perda de consciência e ao óbito. A diferença entre essa alergia e a intolerância à lactose ainda é fonte de confusão para muitas famílias, já que a intolerância está relacionada à deficiência de uma enzima digestiva, e não a uma reação do sistema imune.

O diagnóstico dessa condição exige avaliação médica especializada, com histórico clínico detalhado e realização de testes específicos. O tratamento mais comum é a exclusão completa da proteína do leite da dieta da criança, substituindo-se o leite por fórmulas hipoalergênicas indicadas por pediatras e nutricionistas.

Neste UFF Responde, convidamos a professora do Departamento de Nutrição e Dietética da Faculdade de Nutrição e docente permanente do Mestrado em Saúde Materno Infantil da Faculdade de Medicina da UFF, Manuela Dolinsky, para explicar as causas, tratamentos e pontos de atenção que os pacientes e pessoas próximas devem adotar.

O que é a alergia à proteína do leite de vaca (APLV)? Quais são os principais sinais e sintomas em crianças e adultos?

A APLV é uma reação do sistema imunológico às proteínas presentes no leite de vaca, como a caseína e a beta-lactoglobulina. Ela é mais comum em bebês e crianças pequenas, mas pode, em casos mais raros, afetar também os adultos. Os sintomas variam: podem aparecer logo após o consumo, como coceiras na pele, inchaço nos lábios, vômitos e até dificuldade para respirar; ou podem surgir horas ou dias depois, com sinais como diarreia, sangue nas fezes, cólicas intensas ou constipação. Em adultos, os sintomas costumam ser mais leves, principalmente digestivos.

Como essa alergia é detectada?

O diagnóstico começa com uma boa conversa com o médico, que vai analisar os sintomas, a frequência e a relação com o consumo de leite. Depois, podem ser feitos exames de sangue ou testes na pele para verificar a presença de anticorpos relacionados à alergia. Em alguns casos, o diagnóstico é confirmado com a exclusão do leite da dieta e a posterior reintrodução controlada, sempre sob supervisão profissional.

Quais são os fatores de risco? Existe predisposição para essa alergia?

Sim, existe uma predisposição, especialmente quando há casos de alergias na família, como rinite, asma ou dermatite atópica. Outros fatores incluem a forma como o bebê nasceu (por exemplo, parto cesáreo), uso precoce de antibióticos e ausência ou interrupção precoce do aleitamento materno exclusivo. Tudo isso pode afetar o desenvolvimento do sistema imunológico e aumentar o risco da criança desenvolver a APLV.

Quais os tratamentos atuais para essa alergia? Há cura?

O principal tratamento é retirar totalmente o leite e seus derivados da alimentação. Para os bebês, existem fórmulas especiais, como as fórmulas extensamente hidrolisadas ou, nos casos mais graves, fórmulas à base de aminoácidos. A boa notícia é que, na maioria dos casos, a criança supera a alergia com o tempo, geralmente até os 3 anos de idade. Ainda não há uma “cura” definitiva, mas muitos estudos já investigam a imunoterapia oral, que pode ajudar alguns pacientes a desenvolver tolerância, sempre com acompanhamento médico especializado.

Quais os cuidados importantes na alimentação de crianças com APLV?

O cuidado número um é garantir que a criança não consuma nenhuma forma de leite de vaca, mesmo escondida em alimentos industrializados. Por isso, é fundamental ler os rótulos com atenção. Além disso, é preciso substituir o leite e seus derivados de forma equilibrada, garantindo que a criança receba todos os nutrientes necessários para crescer com saúde, especialmente cálcio, vitamina D e proteínas. O acompanhamento com nutricionista é essencial nesse processo.

Quais as principais alternativas alimentares para quem tem essa condição?

Hoje em dia, temos várias opções no mercado. As bebidas vegetais fortificadas com cálcio, como as de arroz, aveia ou amêndoas, podem substituir o leite em receitas e no dia a dia (desde que não haja outras alergias associadas). Existem também queijos vegetais, iogurtes à base de coco, entre outros. Para os bebês, o uso de fórmulas hipoalergênicas é a alternativa segura. O importante é sempre contar com orientação profissional para garantir uma alimentação segura e nutritiva.

Qual a diferença entre alergia à proteína do leite de vaca e intolerância à lactose?

Embora as duas condições estejam relacionadas ao consumo de leite, elas são bem diferentes. A APLV é uma resposta do sistema imunológico às proteínas do leite e pode causar reações graves. Já a intolerância à lactose é causada pela dificuldade do organismo em digerir o açúcar do leite, chamado lactose, e provoca sintomas como gases, inchaço e diarreia. Ou seja, uma é uma alergia, e a outra, uma intolerância alimentar.

Como lidar com reações graves da alergia, e quais as principais orientações?

Em casos graves, como a anafilaxia, que é uma reação alérgica intensa e potencialmente fatal, é fundamental agir rápido. A primeira medida é aplicar a adrenalina (se prescrita) e buscar atendimento de emergência imediatamente. Quem tem APLV deve ter um plano de ação definido com o médico, e a família, escola e cuidadores precisam estar bem informados sobre como agir em situações de emergência. A prevenção continua sendo a melhor estratégia.

A alimentação e o estilo de vida da mãe durante a gestação e a amamentação influenciam no risco de alergia no bebê?

Influenciam, sim. Uma alimentação saudável e variada da mãe pode ajudar o bebê a desenvolver um sistema imunológico mais equilibrado. O aleitamento materno exclusivo até os seis meses é uma das formas mais eficazes de proteção. Por outro lado, dietas restritivas sem necessidade, uso excessivo de antibióticos e exposição a ultraprocessados e poluentes ambientais podem aumentar o risco de alergias na infância. Por isso, sempre vale investir em um estilo de vida mais natural e equilibrado.

Para apoiar famílias desde a gestação, a Universidade Federal Fluminense (UFF) oferece atendimento nutricional gratuito, com orientações que abrangem desde a gravidez até a introdução alimentar dos bebês. A iniciativa, desenvolvida pelo projeto de extensão Apoio Nutricional e Integrativo à Maternidade (Anima), coordenado pela professora Daniele Mendonça, da Faculdade de Nutrição, disponibiliza serviços especializados que atendem gestantes, lactantes e recém-nascidos. Com foco no bem-estar físico e socioemocional, o programa também desempenha um papel importante na prevenção e manejo de alergias alimentares, como APLV.

Gestantes e lactantes interessadas em atendimento nos ambulatórios do projeto Anima podem agendar suas consultas por meio do formulário disponibilizado na página do projeto Anima no Instagram. O link direciona a um ambiente externo, onde a paciente pode selecionar o ambulatório de sua preferência: nutrição para gestantes, consultoria em amamentação ou introdução alimentar infantil. Ao acessar a plataforma, é possível visualizar as datas e horários disponíveis e escolher a opção mais adequada à sua rotina. Todo o processo é automatizado, dispensando telefonemas ou trocas de e-mails. Após o agendamento, o acompanhamento é feito diretamente pelo WhatsApp do ambulatório.

Fonte: UFF

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