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Inclusão Literária promove acessibilidade para todos

Autora do primeiro livro para leigos sobre síndrome de Down, o “Muito prazer, eu existo”, de 1991, a jornalista e escritora Claudia Werneck agora lança o “Sonhos do dia” – primeira publicação que cumpre na íntegra a lei que garante a qualquer criança o acesso à leitura. De seus 13 livros escritos e traduzidos para o inglês e o espanhol, dois deles (“Um amigo diferente” e “Sociedade inclusiva - Quem cabe no seu TODOS?”) são recomendados pela Unicef e Unesco como leituras indispensáveis sobre sociedade inclusiva.

O livro “Sonhos do dia” conta com vários recursos para cumprir na íntegra as leis que garantem a qualquer criança o acesso à cultura.  Foi difícil lançar uma publicação com tantos recursos?

A WVA é uma editora - talvez a única no Brasil - especializada em formatos acessíveis. Isto desde 1993, ou seja, acessibilidade ampla e cada vez mais qualificada é parte da crença da editora e da minha crença também. Para nós, a informação deve ir ao encontro de todas as condições humanas, com seus múltiplos modos de existir e, consequentemente, de viver na sociedade. A cada livro, a WVA aprimora sua técnica. No “Sonhos do Dia”, há um formato que nunca havíamos concebido: um DVD com animação, audiodescrição (para crianças cegas e com baixa visão) e legenda para crianças surdas que sabem ler. Um formato útil. Graças a ela, várias crianças podem ter acesso ao conteúdo do livro simultaneamente, sabendo ou não ler, tendo ou não tendo deficiência.

Seus estudos sobre acessibilidade e inclusão infantil começaram na década de 1990, quando a senhora teve que fazer uma matéria sobre Síndrome de Down. O que descobriu sobre o assunto? E por que passou a se dedicar a esta causa? 

Eu era chefe de reportagem da revista Pais&Filhos e escrevi uma reportagem sobre síndrome de Down que mudou para sempre a minha percepção do que era ser jornalista. Entendi que era preciso testar os limites da minha profissão e isso significou elaborar matérias, e depois livros, pensando em todas as pessoas (o que eu achava que já fazia, mas não fazia...). Por exemplo, na época se começava a incentivar os pais a participarem do nascimento dos filhos na sala de parto, o que era novidade. Fazíamos várias matérias sobre o assunto, mas sempre imaginando o que este pai enxergava. Eu comecei a imaginar:  como um pai cego poderia participar do parto? Como uma mulher tetraplégica poderia amamentar seus filhos? Como uma adolescente grávida e surda poderia ser atendida em um hospital público se os hospitais - até hoje - não têm intérpretes de Libras à disposição? Essas reflexões não têm fim, felizmente, porque nos levam a um entendimento ampliado da vida e das pessoas.   

A senhora defende a inclusão de crianças com deficiência nas escolas regulares. Acredita que as escolas brasileiras estão preparadas para isso, física e pedagogicamente? 

Eu defendo, não. A Constituição defende. Os tratados internacionais de direitos humanos assinados pelo Brasil defendem. Sobre as escolas não estarem preparadas, isso é um argumento pré-histórico ao qual estamos apegados, porque no fundo acreditamos que é possível “congelar” crianças com deficiência por mais 500 anos, até que tenham o sagrado e o indisponível direito à educação garantido junto às demais crianças e adolescentes de sua geração e na escola pública de seu país. Sabe desde quando ouço essa pergunta? Desde 1990. Ela não tem o menor sentido, principalmente hoje, com o avanço das políticas públicas educacionais que são 100% inclusivas.  

O que seria uma escola inclusiva?

Aquela que oferece ensino de qualidade a todas as crianças. Inclusive para crianças com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento, altas habilidades e superdotação, com religiões consideradas estranhas, com cabelos grandes, com mau hálito, com nariz escorrendo, com depressão, dislexia, pais heterossexuais ou homossexuais, ou seja, seres reais. Tudo isso deve ser feito com equiparação de oportunidades, o que no caso da deficiência significa ampla oferta de recursos de acessibilidade, como livros em diversos formatos acessíveis.  

Há uma linha pedagógica indicada para trabalhar nas escolas inclusivas?

A questão não é pedagógica, é filosófica, apenas se manifesta na pedagogia, e também na gestão da escola, em seu relacionamento com a comunidade, etc, etc.

Como os pais devem responder os questionamentos dos filhos sobre os colegas com deficiência?

Com naturalidade, se eles a têm. Caso não, é uma boa oportunidade para se revisitarem. Fomos criados com preconceitos. O primeiro passo é entender que todos somos diferentes e que não existe “o diferente”. A deficiência é mais uma entre tantas outras expressões da diferença. 

Não pode ser frustrante para uma criança com deficiência perceber que não conseguirá os mesmos resultados que uma criança sem deficiência? 

A frustração é parte do processo de desenvolvimento de qualquer ser humano. Cabe às escolas, aos professores e aos gestores públicos garantir aos estudantes com deficiência o ambiente mais acessível possível, o que não exclui desafios, e estes desafios podem ser enfrentados de diversos modos e por qualquer criança. Isso depende de outros fatores. A deficiência não é necessariamente um componente de frustração. Essa é apenas mais uma desculpa para impedir que os direitos humanos de crianças e adolescentes com deficiência sejam garantidos já!  

A senhora critica a ideia tão difundida de que todos somos iguais. Para muitos, acreditar nesse preceito já seria um primeiro passo para inclusão. Por que este conceito está errado?

Nunca nasceu - até hoje - alguém igual a alguém; entre vivos e mortos, somos infinitamente distintos. O que desejamos são direitos iguais porque somos seres humanos com o mesmo valor, e temos que acessar todos os direitos humanos e fundamentais, a partir da legitimação das diferenças.

Então, a senhora é contra as paralimpíadas e as cotas para deficientes?

A questão não é ser contra ou a favor.  Na inclusão as pessoas têm simplesmente o direito de participar dos espaços considerados universais. Este ano tivemos nas olimpíadas atletas com várias deficiências, no atletismo, no tênis de mesa e na flecha. Esta é uma realidade inclusiva. Atletas com e sem deficiência juntos.

Um de seus livros se chama “Ninguém mais vai ser bonzinho na sociedade inclusiva”. Como combater a ideia de que inclusão é sinônimo de bondade? 

Praticando a inclusão cotidianamente, saindo do campo da solidariedade, que muitas vezes valoriza o exótico e retira de pessoas e grupos, que por alguma razão estão em desvantagem o direito de pertencerem, sem favor ou ajuda de ninguém. Ficamos muito felizes quando fazemos algo por alguém, mas a inclusão propõe o contrário: se fazemos parte de um sistema, não existe fazer pelo outro, fazemos sempre pelo bem comum, pelo coletivo. Ou seja: todos somos simultaneamente vítimas e agentes da discriminação e incluir não é colocar para dentro quem está fora. Incluir é criar novos sistemas educacionais, profissionais, afetivos, políticos, que deem conta da realidade de seres que existem. Não imagino que possa haver uma sociedade sustentável sem a perspectiva da inclusão. Como pensar sustentabilidade deixando grupos de pessoas fora dessa reflexão?

Fonte : O Fluminense

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