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Alunos da UFF produzem tecnologias para pessoas com deficiência

O curso de graduação em Desenho Industrial da UFF está trazendo para a sala de aula a prática do design inclusivo e de cunho social, por meio da disciplina Projeto 4, com ênfase em Tecnologias Assistivas e de Reabilitação. Quem ministra a disciplina é o professor Giuseppe Amado, que incentiva a elaboração de produtos voltados para pacientes com deficiências ou em processo de reabilitação – como bengalas, objetos adaptados e jogos que melhoram a interação, entre outros. Como contrapartida, alguns dos produtos desenvolvidos pelos alunos já foram doados para instituições como a Associação Fluminense de Reabilitação (AFR) e a Associação Fluminense de Amparo aos Cegos (Afac), em Niterói, e o Instituto Benjamin Constant (IBC), no Rio de Janeiro.
Tecnologias de Reabilitação são aquelas voltadas a ajudar pacientes em fase de recuperação física ou psíquica. Já o campo das Tecnologias Assistivas busca aprimorar as habilidades e dar maior autonomia às pessoas com deficiências múltiplas, motoras, sensoriais ou intelectuais, melhorando a qualidade de vida. “Na disciplina busca-se promover um design de qualidade através de técnicas específicas da área, levando-se em conta a etapa em que os alunos estão no curso e as possibilidades tecnológicas e orçamentárias das instituições envolvidas”, diz o professor Giuseppe Amado.
“É uma área pouco explorada no Brasil, o que obriga as pessoas a recorrerem a produtos importados ou fazerem adaptações de má qualidade”, acrescenta Amado. Ele revela que a intenção é que os objetos não sejam apenas protótipos, mas que possam ser fabricados em larga escala, a fim de atender a um público amplo. “Estamos formatando com outros professores do Departamento de Desenho Técnico uma disciplina de projeto executivo para produção em larga escala dos produtos desenvolvidos. Em breve devemos ter mais novidades sobre o assunto. Torço para que saia, porque seria ótimo para os alunos”.
Dirigida a estudantes do quarto período, a disciplina Projeto 4 reúne cerca de 40 alunos por semestre. Divididos em grupos de três a quatro integrantes, visitam as instituições escolhidas por eles mesmos, entrevistam os profissionais de saúde e pacientes, observam as situações, identificam os problemas e desenvolvem as soluções. Ao final, testam o produto com os usuários a fim de avaliar o que foi produzido. Segundo Amado, a cooperação mais importante é com a AFR, instituição filantrópica que possui há vários anos um convênio de parceria técnico-científica com a UFF e é uma das mais tradicionais da cidade de Niterói na área de reabilitação, sendo também conveniada ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Para a fisioterapeuta Valéria Coelho, assessora do Núcleo de Estudos e Pesquisa da AFR, a parceria é duplamente importante pois dá a oportunidade de experimentar os produtos desenvolvidos pela UFF e, ao mesmo tempo, chancelar a qualidade dos projetos dos alunos com a aplicação direta junto aos pacientes. Em dezembro último, com o término do semestre, profissionais da AFR atribuíram notas e opiniões sobre os protótipos apresentados em um encontro realizado no auditório da associação, no qual foram muito bem avaliados pelo setor terapêutico.
Os trabalhos adotam a perspectiva do chamado design social, no qual se evidencia a preocupação do designer em melhorar diversos aspectos da vida das pessoas sob uma perspectiva inclusiva, universal. “Muitas vezes, o design é visto como um meio para melhorar a estética dos objetos, deixando a impressão de que ele é apenas para um público sofisticado. Mas esses conceitos devem estar presentes em todos os projetos de design, arquitetura e engenharia, independentemente de classe social. É importantíssimo que os alunos entrem em contato com outras realidades. Então, tão relevante quanto trabalhar os métodos, é estimular a empatia e o olhar para com o outro. Gosto de tirar o aluno da zona de conforto para que ele não se torne apenas um profissional de escritório, mas que veja o mundo de forma mais ampla”, defende o professor.

Design inclusivo dá o tom dos produtos desenvolvidos para crianças e adultos

De acordo com Giuseppe Amado, no IBC, os estudantes desenvolveram um tapete para auxiliar o professor de dança da instituição a ensinar passos para crianças cegas. Na Afac, os graduandos aprimoraram um acessório denominado pré-bengala, criado para treinar crianças com deficiência visual no uso de bengalas longas. “A principal melhoria desenvolvida foi um sistema de ajuste que tornou o seu uso seguro e mais confortável para um maior número de usuários”, conta.
O estudante Rafael Gonçalves integrou a equipe que aprimorou a pré-bengala, juntamente com Bruno Monteiro e Shirley Prazeres. Ele conta que os principais desafios foram os problemas de ergonomia encontrados no produto original. “Não era nada intuitivo, não tinha uma estética apropriada ao público infantil, faltava ajuste para diferentes alturas e não conseguia simular bem a bengala normalmente usada”, enumera Rafael. “Percebemos que a pré-bengala transformou uma tarefa chata em algo lúdico e divertido, tirando um pouco o clima pesado. O melhor foi ver o manuseio do produto como se fosse um brinquedo. Ficamos satisfeitos com o resultado final, pois atendeu a todas as expectativas”.
 
O grupo de Ana Paula Freires, Hugo Moutinho, Rafaela Borges e Renata Veiga fez um mural textural. “Verificamos que havia poucos brinquedos e atividades na AFR que exploravam as texturas. O produto é dividido em três cenários, o primeiro é o da horta, para a criança pegar os alimentos e pôr na cestinha. O segundo é o da alimentação e consiste em retirar os elementos da cestinha e relacionar com o animal que o come. E o terceiro é o da higiene, no qual é preciso escovar os dentes do porco. Essas atividades desenvolvem o tato fino e o cognitivo, por meio de associações de formas e cores, além de práticas diárias, como escovar os dentes. O objetivo é proporcionar experiências que, provavelmente, ela tem dificuldade de desenvolver sozinha”, explica Ana Paula. Para a estudante, passar da teoria para a prática por meio da pesquisa e do contato com a área de Terapia Ocupacional Infantil foi uma vivência única. “O momento do teste foi a concretização do nosso estudo. Ver o entusiasmo das crianças e o quanto auxilia o trabalho da terapeuta foi maravilhoso”, afirma.

A dupla Gabriella Santos e Thales Porto escolheu trabalhar junto à área de Psicopedagogia Infantil da AFR. Após algumas conversas com as pedagogas, decidiram auxiliar pacientes com o transtorno do espectro autista e outras deficiências intelectuais criando um kit do jogo Desenhe e Apague, para desenvolver a escrita e a criatividade. “Trabalhar com pessoas de verdade e que realmente esperam algo de você pode parecer um pouco intimidante no início, mas é bastante satisfatório quando concluído. O nível de seriedade foi elevado a outro patamar, porque encaramos vivências até então nunca experimentadas em nível profissional, que com certeza serão muito válidas para o restante do curso”, acredita Thales.
Seguindo esse exemplo, a graduanda Hívinna Dineas utilizou o que produziu na disciplina Projeto 4 como tema do seu Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado em dezembro de 2016.
Leia, a seguir, uma breve entrevista com Hívinna.
Sobre o que consiste o seu projeto de calçado feminino adaptado para pessoas com deficiência?
Consiste no desenvolvimento de um acessório elaborado para botas ortopédicas, tendo como público-alvo crianças do sexo feminino. Ele estimula o conforto mental do usuário, além de atender questões de funcionalidade, conforto físico, estética e versatilidade. O projeto está diretamente ligado à causa da inclusão social, visto que as crianças com algum tipo de deficiência ortopédica precisam de um incentivo para se sentirem mais incluídas na sociedade. O estudo e a confecção dos calçados foram realizados dentro da oficina ortopédica da Associação Fluminense de Reabilitação (AFR), em Niterói, e consideraram as tecnologias e limitações do local.
O que despertou em você o interesse pelo produto?
Sempre tive um interesse especial por calçados em geral. Em 2014, participei do programa Ciência sem Fronteiras nos Estados Unidos e estudei bastante sobre design de calçados. Ao retornar para a UFF, precisava pensar no tema para meu projeto de conclusão de curso. Não queria apenas trabalhar com calçados, desejava unir isso a uma causa social. Queria muito abordar o tema de Tecnologia Assistiva, quando encontrei a AFR e vi ali uma oportunidade de ajudar.
Por que você decidiu dar continuidade e tornar esse o tema do seu trabalho de conclusão de curso?
Há cerca de três anos, cursei a disciplina do professor Giuseppe Amado, cujo tema era Tecnologia Assistiva. Foi a partir daí que soube o significado e importância dessas palavras. Na época desenvolvi com uma dupla um acessório para amputados bilaterais de membros superiores e, ao chegar ao resultado, percebi o quanto eu precisava abordar mais esse assunto em meus projetos. Já em Projeto 8 (TCC), vi a oportunidade de unir meu interesse em calçados com a tecnologia assistiva. Não perdi tempo e me foquei nas botas ortopédicas.
Qual foi a importância de desenvolver um produto com relevância social?
Não tem sentimento melhor do que concluir a faculdade com a certeza de que o período como graduanda valeu à pena e sabendo que o último produto desenvolvido foi capaz de melhorar a vida de alguém. Fico feliz em saber que o curso de Desenho Industrial da UFF vem estimulando os alunos desde cedo a trabalhar com um tema de tamanha relevância social e formando profissionais cada vez mais interessados em ajudar ao próximo. Nós saímos da universidade e já entramos no mercado de trabalho com a vontade de tornar a sociedade um lugar melhor.
Fonte: UFF

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