Pular para o conteúdo principal

Pesquisa da UFF reconta a história da pandemia a partir de relato dos idosos

Pesquisa da UFF reconta a história da pandemia a partir de relato dos idosos

                                                                                                           Escrito por Assessoria de Imprensa UFF

Crédito da fotografia: 
Unplash


Segundo o mais recente relatório da Organização Mundial da Saúde, o Brasil é hoje o segundo país no ranking mundial com o maior número de novos casos e mortes por COVID-19, estando atrás apenas dos Estados Unidos. E dos mais de sessenta mil óbitos registrados até o momento, pelo menos setenta por cento deles, de acordo com diferentes centros de pesquisa do país, advém da população com mais de sessenta anos de idade. Trata-se de uma parcela muito específica da sociedade, comumente colocada à margem dela, muito antes de a pandemia transformar radicalmente os modos de vida de todos.

Sem o mesmo direito à voz e a muitos outros direitos, os idosos, que têm tido sua vida abreviada em preciosos anos em razão da pandemia de coronavírus, até o momento não foram convidados a falar mais expressivamente sobre tão assombrosa experiência. Constatação que leva ao questionamento sobre nossa real disponibilidade para a escuta e a convivência com os modos de vida e a temporalidade que encarnam, menos acelerada e “produtiva”.

Sensível às dores silenciosas que diariamente ocupam as manchetes dos jornais, o projeto “História Oral na Pandemia”, com coordenação local da professora do Departamento de História Juniele Rabêlo de Almeida, tem convocado a população de idosos com vida social ativa a produzir relatos autobiográficos sobre esse momento, escrevendo ativamente a história que hoje estamos vivendo. A iniciativa integra o Projeto Interinstitucional “A COVID-19 no Brasil”, do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, com coordenação geral da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Fiocruz Minas.

De acordo com Juniele, esse acervo de entrevistas públicas que está sendo montado e que tem sido acolhido pelo Laboratório de História Oral e Imagem da Universidade Federal Fluminense, “é composto por narrativas gravadas e transcritas - que apontam para a necessidade da valorização das trajetórias e das experiências cotidianas dos idosos. O material presta-se também à observação das estratégias narrativas desses sujeitos, que repensam suas trajetórias nesses tempos desafiadores”, explica.

Olympia Ávila Salsa, professora de artes aposentada e moradora de São Gonçalo, foi uma das participantes do projeto, contribuindo com um lindo relato. “Durante esse dias da pandemia tenho me sentido bem de saúde mas vivo preocupada, me observando, para ter a certeza que estou bem mesmo! Muitas vezes me sinto impotente e até me revolto com notícias que vejo na TV. Falta de honestidade, desumanidade, irresponsabilidade... Porém, não me deixo abalar! Procuro preencher meu tempo com atividades físicas, meditação, pintura e os cuidados com a casa. Também sou aluna da formação de biodança e com isso, compreendi melhor a vida e o que vem acontecendo comigo e com todos. Busco me orientar em meio à pandemia e ter os melhores aprendizados, para quando tudo tiver passado. Triste nesse período é não saber o que nos espera, como será o dia seguinte. O que irá acontecer? Não temos segurança por parte dos governos. É muito revoltante ver o número de pessoas que morrem por irresponsabilidade dos gestores. Somos marionetes em suas mãos. Quando penso nos menos favorecidos, me dói muito não poder ajudá-los. Sou grupo de risco e não poderia atuar tão próximo. E financeiramente não tenho condições. Sei que o país está vivendo momentos difíceis devido à corrupção que aqui se instalou e se perpetua. Tive que conter minha ansiedade. Pra que a pressa? Agora, tenho todo o tempo do mundo”.

Ao observar e documentar essas vozes, a ideia é justamente, como destaca a pesquisadora, “ultrapassar os números estatísticos da lógica empresarial e autoritária”, para que possam ser transformados novamente em nomes, em memórias, em afetos. Segundo a pesquisadora, utilizando como ferramenta a história oral para produzir conhecimento e também catalisar as significações sensíveis das experiências narradas, interessa ao projeto entender os impactos do isolamento social na população idosa, como essa situação interferiu nas suas práticas de sociabilidade e qualidade de vida.

Para Juniele, que tem passado o período de quarentena nos Estados Unidos, onde atualmente é professora visitante na Universidade da Califoria/Berkeley, esse momento foi experimentado como uma travessia do medo ao acolhimento em coletivos de história oral. Nesses coletivos, ela explica, promove-se uma escuta sensível em redes de apoio mútuo.

“Eu me interesso por movimentos, percursos e trajetórias. Gosto do processo, do ‘tornar-se’, do ‘quase’, da obra de arte em construção. Em 20 anos de docência, realizei o que realmente importa para mim: o vínculo, o fazer coletivo, o conhecimento aberto, crítico, dialógico e participativo. Pela primeira vez, não estou em sala de aula, e na Universidade da Califórnia vivi o impacto da pandemia. A história, continuamente reescrita, se faz no Tempo Presente. É no aqui e agora que questionamos os itinerários. Ouvir os idosos tem sido um alento, uma força para continuar o pós-doutorado em terras estrangeiras”, desabafa. 

O convite a participar dessa rede está aberto. Quem tiver interesse, basta enviar as gravações o e-mail historiaoralnapandemia@gmail.com. Solicita-se, juntamente com o arquivo da gravação, o nome completo do entrevistado, a data da gravação, a cidade/país, o ano e local de nascimento. Para fornecer o direito de divulgar a narrativa de história oral, o entrevistado autoriza sua utilização para fins sociais e educativos. O entrevistador também envia os seus dados (nome completo, cidade/país, ano e local de nascimento) e o seu possível vínculo com o entrevistado.


Comentários

Populares

UFF Responde: Hanseníase

  A hanseníase carrega um histórico marcado por preconceito e exclusão. Por décadas, pacientes foram afastados do convívio social, confinados em colônias devido ao estigma em torno da doença. Hoje, embora os avanços no diagnóstico e no tratamento tenham transformado essa realidade, o combate ao preconceito ainda é um desafio. No Dia Nacional de Combate e Prevenção da Hanseníase, neste ano celebrado em 26 de janeiro, a campanha do “Janeiro Roxo” reforça a importância da conscientização, do diagnóstico precoce e da adesão ao tratamento gratuito oferecido pelo SUS, que ajuda a desconstruir mitos e ampliar o acesso à saúde. Em 2023, de acordo com o Ministério da Saúde, foram registrados 22.773 novos casos da doença no Brasil. Por isso, a Estratégia Nacional para Enfrentamento à Hanseníase, estabelecida para o período 2024-2030, trouxe metas importantes, como a capacitação de profissionais de saúde e a ampliação do exame de contatos, que visam à eliminação da hanseníase como problema de...

Morte de turista no Cristo Redentor: cardiologista explica como um desfibrilador poderia ter evitado a tragédia

  A morte do turista gaúcho Jorge Alex Duarte, de 54 anos, no Cristo Redentor, no último domingo, trouxe à tona a falta de estrutura para atendimentos de emergência em um dos principais cartões-postais do Brasil. Jorge sofreu um infarto fulminante logo após subir parte da escadaria do monumento, mas não havia socorristas nem um desfibrilador disponível no local. Para o cardiologista e professor do Curso de Medicina da Unig, Jorge Ferreira, o uso rápido do equipamento poderia ter feito toda a diferença no desfecho da tragédia. "O desfibrilador é o principal aparelho que precisa estar disponível em casos de parada cardíaca. Ele funciona como um relógio da sobrevida: a cada minuto sem atendimento, as chances de sobrevivência diminuem. Se o paciente tiver um ritmo chocável (quando é necessário um choque elétrico para voltar à normalidade), o desfibrilador pode aumentar significativamente as chances de salvá-lo", explica o médico, que também é coordenador do Laboratório de Habili...

Anvisa aprova 1ª insulina semanal do país para o tratamento de diabetes tipo 1 e 2

  A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, nesta sexta-feira (7) a primeira insulina semanal do mundo para o tratamento de pacientes com diabetes tipo 1 e 2. O medicamento insulina basal icodeca é comercializado como Awiqli e produzido pela farmacêutica Novo Nordisk, a mesma que produz Ozempic. A aprovação foi baseada nos resultados de testes clínicos que mostraram que o fármaco é eficaz no controle dos níveis de glicose em pacientes com diabetes tipo 1, alcançando controle glicêmico comparável ao da insulina basal de aplicação diária. Os pacientes que utilizarama insulina basal icodeca mantiveram níveis adequados de glicemia ao longo da semana com uma única injeção. O medicamento também demonstrou segurança e controle glicêmico eficaz, comparável ao das insulinas basais diárias, em pacientes com diabetes tipo 2. A insulina icodeca permitiu um controle estável da glicemia ao longo da semana com uma única injeção semanal, sendo eficaz em pacientes com diferentes ...

Vacina brasileira contra dengue estará no SUS em 2026, diz governo

  O governo anunciou, nesta terça-feira, a incorporação no Sistema Único de Saúde (SUS) da primeira vacina brasileira contra a dengue de dose única, produzida pelo Instituto Butantan. Isso vai valer a partir de 2026. O imunizante será destinado para toda a faixa etária de 2 a 59 anos e será produzido em larga escala, de acordo com o governo. O anúncio foi feito em cerimônia com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ministra da Saúde, Nísia Trindade. Segundo o governo, a partir do próximo ano, serão ofertadas 60 milhões de doses anuais, com possibilidade de ampliação do quantitativo conforme a demanda e a capacidade produtiva. Fonte: Jornal Extra

UFF responde: Alzheimer

  Doença de causa desconhecida e incurável, o Alzheimer é a forma mais comum de demência e afeta, principalmente, idosos com mais de 65 anos. Identificada inicialmente pela perda de memória, pessoas acometidas pela doença têm, a partir do diagnóstico, uma sobrevida média que oscila entre 8 e 10 anos, segundo o  Ministério da Saúde  .  Em um  Relatório sobre Demência , a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que mais de 55 milhões de pessoas no mundo possuem algum tipo dessa doença, sendo mais de 60% dessas pessoas habitantes de países de baixa e média renda. A previsão é de que esse número ultrapasse mais de 130 milhões no ano de 2050. Outros dados apresentados na publicação indicam que a demência é a sétima maior causa de morte no mundo e que, em 2019, representou um custo global superior a 1 trilhão de dólares. Com o intuito de criar ações para o tratamento e a conscientização sobre a Doença de Alzheimer e de demências, em junho de 2024, foi instituída a...