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Obesidade aumenta 90% entre jovens de 18 a 24 anos em apenas 1 ano, diz pesquisa; especialista explica fenômeno

 

Obesidade na adolescência

A obesidade atinge 17,1% dos jovens de 18 a 24 anos no Brasil. A taxa corresponde a um impressionante aumento de 90% em comparação com o ano anterior, quando 9% dessa população tinha índice de massa corporal (IMC) igual ou maior que 30 kg/cm². O dado alarmante está no Covitel 2023, Inquérito Telefônico de Fatores de Risco para Doenças Crônicas Não Transmissíveis em Tempos de Pandemia.

— Os dados da Vigitel já mostravam que população está cada vez mais em risco porque ela come mal, bebe mais e não faz atividade física e uma hora a conta chega. Mas não esperávamos esse aumento de 90. É algo que nos chamou muito a atenção. Esse é um jovem que passou o fim da sua adolescência, que é um momento de muita interação, na pandemia. Em vez disso, ele estava dentro de casa — diz Luciana Vasconcelos Sardinha, gerente sênior de DCNT (sigla para Doenças Crônicas Não Transmissíveis) da Vital Strategies.

Sardinha chama a atenção para os hábitos de vida pouco saudáveis dessa população, o que contribui para o excesso de peso. O levantamento, realizado pela Vital Strategies, organização global de saúde pública, e pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), mostrou que:

  • 32,6% dos jovens de 18 a 24 anos relataram episódio recente de consumo abusivo de álcool;
  • Essa é a faixa etária que menos consome frutas, verduras e legumes e a que mais consome refrigerante ou sucos artificiais;
  • Têm alto nível de sedentarismo: apenas 36,9% praticam os 150 minutos semanais recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS);
  • São líderes em tempo de tela: 76,1% utilizam dispositivos como celulares, tablets ou televisão três horas ou mais por dia para lazer;
  • Cerca de metade não dorme a quantidade de horas recomendadas para a idade.
Os efeitos destes hábitos pouco saudáveis tendem a se agravar com o tempo, mas os problemas de saúde já começam a aparecer: 8,2% dos jovens de 18 a 24 anos, o que corresponde a 1,4 milhão de pessoas, têm hipertensão e 2,2% ou 750 mil jovens têm diabetes.

A saúde mental também está comprometida com 31,6% dos brasileiros com ansiedade e 14,1% com depressão.

— Precisamos lembrar que os jovens são uma força econômica para o país e isso representará um grande problema. Se continuar assim, teremos uma população de obesos, com doenças crônicas não transmissíveis. Além disso, tem a questão da saúde mental, que é preocupante. Precisamos de uma política pública de estado com foco nessa população para evitar problemas na economia e também no sistema de saúde — avalia Sardinha.

A pesquisa ouviu 9 mil brasileiros de todas as regiões do Brasil, incluindo interior e capitais. O objetivo do levantamento é trazer um retrato da magnitude do impacto dos principais fatores de risco para doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) na população adulta brasileira (18 anos ou mais). O questionário trazia perguntas sobre percepção geral de saúde, prática de atividade física, hábitos alimentares, saúde mental e prevalência de hipertensão arterial e diabetes, além de consumo de álcool e de tabaco.





Alimentação ruim




Os resultados mostraram que não é apenas o jovem. O brasileiro, em geral, se alimenta mal. Menos da metade da população (45,5%) consome verduras e legumes cinco vezes ou mais na semana. A ingestão de frutas apresenta cenário similar: 41,8% dos brasileiros têm frutas na dieta cinco vezes ou mais por semana. Em ambos os casos, os idosos com 65 anos ou mais são a faixa etária que mais come esses alimentos.


O consumo também é mais frequente entre mulheres, pessoas de escolaridade mais alta e residentes na região Sul, o que indica a desigualdade no acesso. Embora a renda não tenha sido questionada, essas características indicam que pessoas de renda mais alta têm mais acesso a alimentos saudáveis.


Já com relação à inclusão de refrigerantes e sucos artificiais na dieta, um marcador de alimentação não saudável, 17,8% dos brasileiros consomem cinco vezes ou mais na semana. Como já citado, os jovens adultos são os maiores consumidores, com 24,3% bebendo esses produtos com frequência.




Pouca atividade física




Além da alimentação equilibrada, a prática regular de atividade física é um forte ator de proteção para as DCNT. Esse quesito também não está favorável para a população brasileira. Apenas 31,5% dos brasileiros praticam pelo menos 150 minutos de atividade física moderada ou vigorosa por semana. Essa é a quantidade recomenda pela OMS.


“A inatividade física causa mais de 5 milhões de mortes por ano no mundo. Políticas públicas de promoção da atividade física são urgentes em todo o território nacional”, pontua Pedro Hallal, Professor da Universidade Federal de Pelotas e um dos coordenadores do Covitel, em comunicado.


Os homens são mais fisicamente ativos do que as mulheres. A frequência da prática de exercícios também aumenta em pessoas com maior escolaridade e menos idade.




Excesso de peso, diabetes e hipertensão em crescimento




A combinação entre dieta e atividade física insuficiente se reflete nos índices de excesso de peso e comorbidades da população. Mais da metade da população brasileira (56,8%) está com excesso de peso (sobrepeso e obesidade), ou seja, estão com IMC igual ou acima de 25kg/cm2.





O índice chega a 68,5% na faixa etária que tem entre 45 e 54 anos e a alarmantes 40,3% entre os mais jovens, com 18 a 24 anos.


O diabetes atinge 10,3% da população. Os mais velhos e com menos escolaridade são mais afetados. Já quando se trata de hipertensão arterial, 26,6% dos brasileiros tiveram diagnóstico, com maiores prevalências entre mulheres, idade avançada e menor escolaridade.




Tabagismo estagnou




A prevalência de tabagismo estagnou no país nos últimos anos, interrompendo uma tendência consistente de redução. Nos três períodos avaliados pelo inquérito (pré pandemia, 1º trimestre de 2022 e 1º trimestre de 2023), a prevalência se manteve estável no Brasil, com 11,8% da população sendo usuária de cigarro convencional, de palha, de papel, charuto ou cachimbo.


Para Sardinha, isso é reflexo de o cigarro convencional estar muito barato no Brasil - é o segundo mais barato da região das Américas, já que não há reajuste de 2016. Ela explica que o aumento do preço de produtos que fazem mal à saúde é uma estratégia comprovada de desincentivo ao consumo.


Quem mais fuma são os homens, pessoas da região Sul, com idades entre 45 e 54 anos. Entre jovens, o uso de tabaco convencional foi relatado por 9,4%. Por outro lado, 22,5% disseram já ter usado narguilé e 23,9%, cigarros eletrônicos, ao menos uma vez na vida.

Consumo abusivo de álcool entre jovens




O uso regular do álcool, que contempla o consumo três ou mais vezes por semana, foi relatado por 7,2% da população. As maiores prevalências estão entre as pessoas do Sudeste e homens.


Já o consumo abusivo, definido como quatro doses ou mais para mulheres e cinco doses ou mais para homens em uma mesma ocasião, nos 30 dias que antecederam as entrevistas do inquérito foi relatado por 22,1% da população. A prevalência ficou maior entre o sexo masculino, pessoas com maior escolaridade e entre os jovens adultos, onde o índice chegou a 32,6%.


Além disso, entre os mais jovens, 4,8% apresentam risco ou dependência de álcool. Na população em geral, esse índice é de 4%.


Sardinha explica que esse módulo que avalia o risco de dependência de álcool na população é novo na pesquisa. E embora a diferença estatística entre os jovens e a população em geral não seja significativa, o achado mostra uma tendência a risco e dependência.


— São pessoas que podem ter menor produtividade e ficar afastadas pelo INSS, o que pode prejudicar a economia do país. Esse novo questionário que avalia risco e dependência fornece dados para serem usados na reforma tributária. A ideia é que tenha um imposto seletivo para produtos que causam risco à saúde, como álcool, tabaco e ultraprocessados — ressalta a gerente sênior da Vital Strategies.




Saúde mental em alerta




Hoje, 12,7% dos brasileiros relatam já terem recebido diagnóstico médico para depressão. As maiores prevalências estão na região Sul, entre as mulheres e na faixa etária de 55 a 64 anos, seguida pelos jovens de 18 a 24 anos.


Já o diagnóstico médico para ansiedade chegou para 26,8% dos brasileiros. Os maiores índices estão nos adultos jovens, no Centro-Oeste e entre as mulheres (34,2%).


— O dado de saúde mental é bem expressivo. Se aconteceu algo bom na pandemia foi colocar a saúde mental na mesa, mas essa questão tem que ser olhada de forma intersetorial. A saúde paga a conta, mas as outras áreas precisam proporcionar melhores ambientes para que a pessoa não tenha esses problemas. Por exemplo, sabemos que crianças que moram perto de áreas verdes e praças tem maior qualidade de vida. Já pessoas que moram em locais violentos, tem pior saúde mental. São necessárias políticas públicas que considerem tudo isso — avalia Sardinha.




Qualidade do sono




O sono é um fator fundamental para a saúde, embora muitas pessoas não se deem conta disso. A boa notícia é que a maior parte dos brasileiros (59,3%) disse dormir o tempo recomendado para sua idade. A qualidade do sono também é considerada boa por 58,9% da população.




No entanto, esse índice ainda precisa melhorar. A privação do sono aumenta o risco de desenvolver doenças cardíacas, pressão alta, acidente vascular cerebral, diabetes tipo 2, infertilidade, obesidade e até mesmo demência. Ela turva o pensamento, esgota a energia, aumenta a irritabilidade e diminui o desejo sexual. Estudos mostram que uma noite sem dormir já é o suficiente para desestabilizar a saúde.

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