
"Meu olfato está completamente inconstante. Algumas vezes sinto o cheiro normal, em outras ele é diferente da minha memória, como quando minha mãe cozinha carne ou frango. Certos cheiros fortes eu simplesmente não sinto, como o perfume que eu mesmo usava". O relato é do estudante de Engenharia Davi Machado, de 23 anos, que contraiu a Covid-19 em maio. Meses após ter se recuperado da indisposição que sentiu na época, um único sintoma permanece: a alteração do olfato.
Esse tipo de distúrbio se mostrou frequente em pessoas infectadas pelo novo coronavírus. Para alguns, eles se manifestam apenas no início da doença, mas para outros podem ser duradouros. Há, contudo, algumas maneiras de amenizar os efeitos deste problema. Uma delas é o treinamento olfatório, que funciona como uma espécie de fisioterapia. A organização europeia AbScent tem um site especializado no tema que oferece informações e guias, alguns com versão em português.
— Cerca de dois terços dos pacientes com Covid-19 apresentam algum tipo de alteração do olfato. Na maioria das vezes ela é súbita e muito intensa. Depois de um mês, aproximadamente 50% têm uma recuperação completa, mas a outra metade ou não recupera nada ou tem melhora parcial. Depois de três meses, 5% continuam com o sintoma. Estamos atendendo pacientes que já estão com até seis meses de perda — conta Fabrizio Ricci Romano, Presidente da Academia Brasileira de Rinologia.
Além de afetar a capacidade de sentir odores, o sintoma também pode provocar impactos na alimentação, pois o olfato é responsável por detectar grande parte das nuances dos sabores, enquanto apenas uma pequena parte vem da gustação, que é sentida na língua. Para algumas pessoas, a alteração da própria gustação também pode aparecer como sintoma da Covid-19, mas costuma ser recuperada mais rápido e de forma mais completa, explica o médico.

Por que acontece e o que fazer
O otorrinolaringologista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Felippe Felix explica que a perda de olfato acontece porque o Sars-Cov-2 tem uma ligação com receptores presentes nas células de sustentação da região olfatória.
— Quando eles se ligam, isso gera uma reação inflamatória, inchando a região e diminuindo as chances das partículas de odor chegarem até o receptor olfatório — afirma o médico.
No entanto, é preciso ter atenção, pois o sintoma também pode ser provocado por outras condições, entre elas, inclusive, diferentes tipos de vírus.
Além disso, Romano afirma que alguns medicamentos também podem ser indicados pelo médico, dependendo de cada caso.
— As pessoas precisam saber que existe tratamento para esse sintoma, e que se tratar as chances de recuperação são maiores. Quanto antes começar, melhor — destaca.
Cuidados para esse momento
Alimentos vencidos - Uma dica é colocar em destaque nas embalagens dos alimentos as datas de validade, porque a percepção do sabor pode ser perdida, impedindo a identificação de que está estragado.
Vazamento de gás ou fogo - Pode ser necessário instalar alarmes detectores de gás e fumaça em casa para se prevenir contra intoxicação e incêndios, pois é possível não sentir esse tipo de cheiro.
Impacto psicológico - Muitas pessoas têm consequências psicológicas relacionadas aos odores corporais, porque se sentem inseguras sem saber se estão com cheiro de suor ou mau hálito, por exemplo. Pode ser preciso trabalhar esse aspecto.
Fonte: Jornal Extra
Comentários
Postar um comentário