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Entenda a diferença dos dois casos documentados de 'eliminação' do HIV


O primeiro caso registrado de cura do HIV, em um americano de 47 anos conhecido como "paciente de Berlim" – pois ele morava na Alemanha quando descobriu o vírus, em 1995 –, é muito diferente da "eliminação" ocorrida em um bebê de 2 anos e 2 meses anunciada no domingo (3) durante um congresso médico em Atlanta, nos EUA.
"As duas situações são muito distintas. A primeira foi uma cura esterilizante, que se aproxima do conceito de cura que a população geral tem, quando se elimina o vírus do corpo", explica o imunologista e infectologista Esper Kallás, professor de imunologia clínica e alergia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
Isso porque o americano Timothy Brown tinha HIV e leucemia, motivo pelo qual passou por dois transplantes de medula óssea com células-tronco, de um doador que era resistente ao vírus da Aids. Essa característica genética rara, chamada de mutação do receptor CCR5 – que torna algumas pessoas imunes ao HIV –, beneficiou Brown e o deixou sem traços do vírus no organismo.
Indivíduos sem esse receptor não têm a porta pela qual o HIV entra nas células, mas são raros: cerca de 1% da população do norte da Europa.
Já no segundo caso documentado, da criança que se infectou ao nascer – a mãe era soropositiva – e recebeu tratamento após 30 horas, houve a chamada "cura funcional", em que a presença do vírus é tão pequena que ele se mantém indetectável pelos testes clínicos padrões, inclusive de DNA. Condições assim só podem ser identificadas por métodos muito sensíveis, não em laboratórios convencionais de análises clínicas.
"Nesse caso, o bebê ainda tem o vírus dentro do corpo, mas ele seria incapaz de causar um dano ao sistema de defesa, porque se multiplica de forma muito lenta ou nem se replica", diz o médico.
Resposta imune
Segundo Kallás, ainda não é possível saber ao certo como a criança apresentou essa resposta imune.

"Podem ter sido razões genéticas, que tornariam o sistema imunológico dela privilegiado; ou esse vírus seria menos agressivo, ou ainda foi o tratamento que atingiu esse objetivo. Não dá para dizer a relação de causa-efeito", afirma o infectologista.
De acordo com a virologista Deborah Persaud, que coordenou o trabalho americano, o bebê não tinha nenhuma mutação genética que o tornava resistente ao HIV. O tratamento foi feito com três remédios diferentes: zidovudina (AZT), lamivudina e nevirapina.
Na opinião do médico da USP, esse relato é incomum por vários aspectos: pelo fato de a mãe não ter feito o pré-natal e não saber que era soropositiva, por não ter tomado o coquetel anti-HIV e por ter suspendido o tratamento da criança após 1 ano e meio, em janeiro de 2012, durante cinco meses. Quando elas voltaram ao hospital, a menina já tinha quase 2 anos.
"Quando a mãe não faz prevenção, o risco de transmitir o HIV durante o parto, natural ou por cesárea, é de um para três casos. Já entre as mulheres que fazem acompanhamento médico adequado, durante a gestação e após o nascimento da criança, menos de 1% passa a infecção para o bebê", destaca Kallás.
Ele diz que não é recomendado descontinuar o tratamento, como fez essa mãe. Segundo apontou Deborah em entrevista ao site hivandhepatitis.com, é difícil manter as famílias em acompanhamento constante, pois muitas têm dificuldades financeiras e não podem perder manhãs inteiras de trabalho para ir ao médico.
Casos precoces
De acordo com Kallás, ainda não há condições experimentais de testar casos precoces como o desse bebê. Isso porque a maioria dos pacientes, principalmente quando são infectados sexualmente, chega ao consultório sem saber quando se contaminou. No caso das crianças, porém, é possível identificar esse momento, pois a maioria é no parto.

"Acredita-se que, quanto mais cedo você tratar, menos risco há de o vírus ir para os esconderijos do corpo, em células do sistema imune que 'albergam' o HIV, que fica ali latente. Hoje existe um esforço muito grande para estudar esses esconderijos, mas ainda não conseguimos nada nesse sentido", diz.
Kallás também reforça que esse caso é um relato único, muito bem estudado e documentado, mas não pode ser extrapolado para os cuidados com as crianças e os adultos em geral.
"Esse atendimento não foi planejado como um estudo que buscava respostas para essa questão. O que ocorreu foi uma constatação, por uma série de coincidências. Já uma pesquisa se faz com amostras, não apenas com acompanhamento", ressalta o infectologista.
Segundo ele, é preciso tomar muito cuidado para não dar a impressão de que a descoberta resolveu todo o problema da Aids, pois a regra geral indica que a suspensão do tratamento faz o vírus voltar a seus níveis anteriores. Atualmente, 33 milhões de pessoas estão infectadas pelo HIV em todo o mundo.
Fonte : G1


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