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Bactérias intestinais podem ser chave para combater obesidade

São Paulo - Você pode chamá-los de aliados ocultos: os germes certos podem ser capazes de combater a gordura. Diferentes tipos de bactérias que vivem no interior do intestino podem ajudar a estimular a obesidade ou proteger contra ela, afirmaram cientistas da Universidade de Washington em St. Louis. Os pesquisadores transplantaram a flora intestinal de uma pessoa obesa e de outra magra para camundongos e observaram as mudanças que aconteceram nos roedores.

O que os ratos comeram determinaram se os germes bons poderiam realizar essa tarefa. O estudo divulgado nesta quinta-feira (5) no periódico Science levanta a possibilidade de um dia transformar as bactérias intestinais em terapias personalizadas de combate à obesidade, e isso também pode ajudar a explicar o motivo de algumas pessoas terem mais dificuldade do que outras para perder peso.

"As bactérias são personagens importantes", disse David Relman, da Universidade de Stanford. Ele não estava envolvido nessa pesquisa, mas também estuda como as bactérias do intestino influenciam na saúde.
"Este estudo diz que a dieta e os micróbios são companheiros necessários em todas as etapas. Eles alimentam um aos outros, no sentido literal e figurado”.

Todos começam a vida com um aparelho digestivo estéril. As bactérias se instalam no organismo a partir do nascimento – pegamos germes dos pais, do ambiente e dos primeiros alimentos. Por fim, o intestino fica repleto de centenas de espécies, que diferem de pessoa para pessoa, dependendo do estado de saúde de cada um.

Pessoas com sobrepeso abrigam tipos e quantidades diferentes de bactérias intestinais do que aquelas que estão dentro do peso normal. As bactérias intestinais que contraímos ainda quando crianças podem ficar no organismo por décadas, apesar das mudanças que acontecem quando as pessoas perdem peso e que foi demonstrado por estudos anteriores.

Sem dúvidas, o que você come e quanto de exercícios físicos você faz são a chave que determinam seu peso. Mas essas diferenças de bactérias intestinais são a causa da obesidade ou simplesmente o resultado dela? Se forem as causadores, quais bactérias exatamente são as culpadas ou o que é possível fazer para mudar esse quadro?

Para começar a investigar a questão, a estudante Vanessa Ridaura da Universidade de Washington coletou bactérias de oito pessoas – quatro pares de gêmeos em que sempre um dos irmãos era obeso e o outro magro. Um par de gêmeos era idêntico, o que descartou a possibilidade de eles terem herdado características genéticas diferentes, resultando em pesos diferentes. Usar gêmeos na pesquisa também garantiu que tiveram dietas e viveram em ambientes similares na infância.

Vanessa transplantou os micróbios humanos para o intestino de camundongos que tinham sido criados de uma forma em que não tivessem germes intestinais.

Os camundongos que receberam bactérias intestinais das pessoas obesas ganharam mais peso e experimentaram alterações metabólicas maléficas, mesmo não comendo mais do que os ratos que haviam recebido os germes dos gêmeos magros, como observou o autor do estudo Jeffrey Gordon da Universidade de Washington.

Em seguida veio o que Gordon chamou de ‘batalha dos micróbios’. Ratos que abrigavam bactérias intestinais de magros foram colocados nas mesmas jaulas dos ratos que tinham em seus corpos os germes que os deixavam propensos a serem obesos. A equipe de pesquisa aproveitou um fato nojento da vida dos roedores: ratos comem fezes, e, presumivelmente, por meio dessa prática eles poderiam facilmente trocar os micróbios intestinais.

O resultado foi uma surpresa. Certas bactérias provenientes dos camundongos magros invadiram o intestino dos ratinhos obesos, e fizeram com que o peso e metabolismo deles melhorassem. A troca, porém, era unidirecional - os ratos magros não foram afetados e não engordaram.

Além disso, os ratos gordos só tiveram esse benefício quando estavam sendo alimentados com uma dieta pobre em gorduras e rica em fibras. Quando Vanessa substituiu pela dieta típica dos americanos - que é rica em gordura e pobre em fibras - o efeito protetor das bactérias não funcionou mais.

Gordon já sabia, por meio de estudos em humanos, que pessoas obesas abrigam menos bactérias intestinais “É quase como se tivessem postos de trabalho vagos lá dentro do intestino, coisa que pessoas magras não tem”, explicou.

Certamente, ao estudar mais atentamente os ratos que foram beneficiados com a troca bacteriana, foi sugerido que um tipo específico de bactéria, da família Bacteroidetes , ocupara lugares vazios no cólon – mas somente se os ratos comerem direito.

Mas como essas descobertas podem chegar a beneficiar as pessoas? Para um tipo de diarreia infecciosa particularmente difícil de se tratar, os médicos às vezes transplantam um pouco de bactérias de uma pessoa saudável para o intestino da doente. Alguns cientistas se perguntam se transplantes fecais feitos do magro para o gordo poderiam tratar obesidade também.

Gordon, porém, prevê uma alternativa menos invasiva: determinar as melhores combinações de bactérias intestinais para coincidir com a dieta da pessoa, e, em seguida, cultivar bactérias em um laboratório estéril - como este estudo fez - e transformá-las em pílulas. Ele estima que, para tal tentativa se tornar realidade, será necessário pelo menos mais cinco anos de pesquisa.

Fonte: O Dia

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