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Terceira idade: O maior desafio é perder o vício

Há pelo menos 40 anos, Iza Inneco mantém uma rotina: não fuma durante o dia. Apesar de não gostar do hábito – e nem do cheiro - do cigarro, ela não consegue deixá-lo. Essa é a realidade de muitos fumantes, especialmente os que já aderiram à prática há muitos anos. Segundo uma pesquisa publicada nos Cadernos de Saúde Pública da Fiocruz no ano passado, a prevalência do hábito de fumar entre idosos no Brasil é de 12,2%.“Estou tentando parar”, afirma Iza, de 70 anos. “Antigamente era chique, hoje acho horrível ver a meninada fumando”, diz ela, que só fuma em casa e acaba se rendendo ao cigarro durante o dia em momentos de muita ansiedade.
Coordenador do Núcleo de Estudos e Tratamento do Tabagismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Alberto Araújo afirma que a dificuldade é a mesma, tanto para idosos quanto para jovens adultos. “As motivações é que são diferentes. Muitos idosos vivem isolados. A depressão também afeta muito essa faixa de idade, então o cigarro seria um companheiro”, diz.
Segundo Salo Buksman, geriatra e diretor da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, os idosos que já fumam há muito tempo costumam ter o mesmo discurso: “O que eu tenho a perder? Já sou idoso, já cheguei até aqui, então por que vou parar de fumar a essa altura?”. Salo sustenta a ideia de que nunca é tarde para parar. “A sobrevida dos idosos já aumentou muito. Então ainda se tem uma expectativa de vida que pode chegar a, pelo menos, 20 anos”, completa.
Valdemar Antunes, de 68 anos, que fuma há 55, já buscou alguns tratamentos. Conseguiu por quase uma semana, o que causou irritação e muita ansiedade. “Voltei pela ansiedade”, relata, lembrando que nesse período buscou evitar hábitos que remetessem ao cigarro. “Evitava tomar café e bebia bastante água”, diz.
Salo reforça que este é um dos métodos aceitáveis para se começar a deixar o vício. “Pessoas que associam determinados hábitos ao fumo podem ter dificuldades se elas mantiverem o hábito associado. Às vezes, é o café, um gole de vinho, tem o que vai para a varanda depois do almoço etc. A pessoa associa algumas atitudes ao fumo, então tem que desvincular, quebrar esse hábito para alterar as rotinas que estão associadas ao hábito de fumar”, explica Salo, ressaltando que, geralmente, o fator mais motivador é o surgimento de complicações, comuns aos fumantes. “É comum pararem de fumar depois de um infarto do miocárdio. É muito traumático”, completa Salo.
Alberto ressalta que medicamentos (adesivos, gomas e comprimidos) podem ser eficientes neste período de abstinência, que vai de duas a quatro semanas, aliados a um tratamento comportamental, como o que é feito no núcleo da UFRJ. “Usamos o medicamento porque grande parte não pararia sozinha. Eles precisam de ajuda para anestesiar esse período. No tratamento, os idosos anotam as atividades diárias e o que fazem no momento do fumo, o tempo de intervalo entre um cigarro e outro, tudo é mapeado e fazemos um programa gradual, antes mesmo do medicamento”, explica.
Já tendo se recuperado do vício do fumo há cinco anos, Nilton Pereira, 73, hoje tem mais fôlego para praticar exercícios. “Faço caminhada e outros exercícios que até fazia antes, mas cansava rápido. Fumei dos 13 aos 68 anos, mas não volto a fumar, isso eu tenho certeza”, conclui.
Fonte: O Fluminense

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